A discussão sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem ganhado cada vez mais relevância no Brasil. Segundo o Censo Demográfico 2022, o país registra cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas, o que representa 1,2% da população acima de 2 anos. No entanto, recortes específicos mostram uma prevalência de 2,6% em crianças de 5 a 9 anos.
O Dia Mundial da Conscientização sobre o Autismo, 2 de abril, foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2008 para fomentar ações educativas sobre a neurodivergência em todo o mundo, conscientizar as pessoas e combater o preconceito.
O que é o TEA e quais as suas causas?
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por dificuldades na comunicação e na interação social, hipersensibilidade sensorial e pela presença de comportamentos repetitivos ou interesses restritos.
Estudos científicos sugerem uma causa multifatorial, incluindo fatores genéticos e ambientais. A exposição a certas causas ambientais ocorre com mais frequência em crianças com autismo, como:
- Idade parental avançada;
- Diabetes gestacional;
- Exposição pré-natal a poluentes do ar e metais pesados;
- Prematuridade, complicações severas ao nascimento e baixo peso ao nascer.
Vale destacar que pesquisas extensas e aprofundadas, conduzidas por muitos anos, demonstram que não há correlação entre a aplicação de vacinas na infância e o aumento do risco de autismo.
Pessoas com TEA frequentemente apresentam outras condições de saúde (morbidades), como epilepsia, depressão, ansiedade e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
Os três níveis de suporte do TEA
O termo “espectro” reflete a variação de como o autismo se manifesta. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR) divide o suporte em três níveis:
- Nível 1 (suporte leve) – a pessoa se comunica verbalmente, mas tem dificuldade em iniciar interações sociais ou manter a fluidez de conversas. Pode apresentar inflexibilidade para trocar de tarefas.
- Nível 2 (suporte moderado) – as dificuldades são mais aparentes. A comunicação pode ser feita por frases simples ou muito focada em interesses específicos. Comportamentos repetitivos são mais frequentes.
- Nível 3 (muito suporte) – déficits de comunicação e cognição mais acentuados. Muitas pessoas são não oralizadas e necessitam de auxílio para realizar atividades básicas como higiene e alimentação.
A importância das terapias multidisciplinares
A Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) divulgou, em outubro de 2025, novas diretrizes focadas no diagnóstico clínico precoce e em terapias baseadas em evidências:
- Diagnóstico precoce – é possível identificar sinais da condição nos primeiros meses de vida. A avaliação deve ser clínica e multidisciplinar sempre que houver suspeita.
- Sinais de alerta – falhas no contato visual, baixa reciprocidade social, ausência de vocalização, comportamentos repetitivos e interesses restritos.
- Intervenções recomendadas – a ciência Análise do Comportamento Aplicada (ABA) é destacada como a de maior evidência científica. O tratamento deve incluir fonoterapia, terapia ocupacional e fisioterapia.
- Alerta sobre tratamentos sem evidências – a SBNI alerta para o uso de ozonioterapia, dietas restritivas sem justificativa médica, suplementação excessiva e o uso de canabidiol (ainda considerado experimental para esse fim).
É comprovado cientificamente que as intervenções iniciadas antes dos 3 anos melhoram significativamente o desenvolvimento cognitivo, a linguagem e a autonomia. Estudos mostram que o tratamento precoce pode reduzir, de forma relevante, a necessidade de suporte em fases posteriores da vida, embora a magnitude desse efeito varie entre os indivíduos.
Diagnóstico de autismo na vida adulta
O aumento de casos de autismo em adultos tem crescido, principalmente pela maior conscientização do autismo leve, considerado nível 1 de suporte. O maior dificultador para a identificação do transtorno em adultos é a modulação comportamental, em que as pessoas passam a imitar condutas socialmente aceitas, o que pode mascarar o transtorno.
Entre os sinais comuns de TEA em adultos estão:
- Exaustão social – necessidade de isolamento total após interações comuns.
- Hipersensibilidade – incômodo extremo com sons específicos, etiquetas de roupas ou luzes de escritório.
- Hiperfoco – dedicação intensa a temas específicos, tornando-se quase um especialista no assunto.
- Problemas para entender ironia, sarcasmo ou regras sociais não ditas.
O diagnóstico em adultos também é baseado no retrospecto, ou seja, um psiquiatra ou neuropsicólogo analisa se os sinais já existiam na infância, mesmo que tenham sido ignorados na época. Buscar a confirmação do autismo é importante para promover o autoconhecimento, garantir acesso a adaptações no ambiente de trabalho e prioridades legais, além de viabilizar terapias especializadas necessárias.




